O outro mármore

A superfície lisa



Comments: Sexta-feira, Dezembro 26, 2008

Foi quando seu interesse por mim desmoronou. Um, dois, três, dez passos depois eu vi minha imagem refletida no vidro de uma loja e sonhei com alguém que pudesse ser. Meu sonho desabou, um, dois, seis segundos depois quando olhei as horas.
Devíamos ter ficado na rua, mas decidimos voltar para casa. O relógio é cruel e a pele é desumana. Tantas incarnações de ti me amando como uma boneca numa estante, não uma boneca real e apodrecida e ansiosa que estala os dedos nervosamente.
Não alguém em constante necessidade de significado, tão profundamente entediada. Dez, dez e meia, onze horas, meia noite, e o coração bate em puro pânico ao ver o travesseiro.
Num instante sou eu: a mais pura demonstração da ânsia, levantando, correndo, gemendo com o rosto todo apertado e no outro instante cá estou, desprovida de poder assistindo-me à mim mesma com um espanto inconformado.
Tantas incarnações de ti me soprando sonhos como quem diz a resposta. Amarrada, atrelada à seu hálito de Deus que descansa no sétimo dia.
As luzes de Natal, brutais e magníficas, descem para as calçadas distorcendo nossos pés molhados. Quantas vezes desejei ser a ingênua menina achando conforto em pequenas pérolas de beleza... Mas as pontas murchas dos dedos me cutucam assustando, a profundidade da beleza que é obscura e doentia me chama e me acorda.
Todos os seus pensamentos são como chamas de velas lutando contra o vento. Apagando-se por momentos e renascendo pálidas. Toda a parafina enlameada- espalham-se seus pensamentos grudentos. Ele disse que viria mas ainda tolo em seu isolamento não permite o fogo uma aproximação.
Sou a amante transparente que não se toca e não cheira. Sou o terror inócuo que nunca dói ou desespera.
Embaixo dos lençóis finos meu corpo se derrete, e sem líquido, evapora-se, sem rastro, sem provas.
Meu beijo é frio e sólido. Penetrando na medula dos seus ossos, o congelante beijar.
Tantas incarnações de você me desejam como um ser distante, irreal e lúcido. Mas aqui estou, cambaleante, procurando significados e ânsias. Nenhuma arma em ti fere o suficiente para arrancar meu tédio, e eu procuro uma porta para dores mais agudas.
Só o meu nome, mas nunca haverá evidência que um dia existi nessa cidade. Nenhuma respiração ou pulsação concreta, todos os fantasmas antigos desapareceram entre as paredes, como marcas digitais invisíveis eu os procuro, apenas para saber que há algo além do tédio do agora.
Foi como quando a cigana pegou minha mão. Pegou para ler e leu, como um poema grosseiro. Para ela não importo, para ela não importa a civilização. Não importa um indivíduo de mãos secas, brancas, trêmulas, atravessando uma ponte.
Nem ao menos o que está escrito, pois se reescreve até a mão, dependendo do que se quer dizer. Deixei minha sinistra aura na cigana, que à noite suou frio e leu sua própria mão que dizia: durma.
Não é você nem ninguém quem me salvará da minha inocência imatura. Das dimensões flutuantes que vibram como cortinas infinitas entre as quais andamos. Estou de volta naquela casa gigantesca, construída nos anos 30, com grandes corredores e banheiros de azulejo branco e silêncios dobrando os cantos de cada quarto. É a minha voz atravessando as concretas paredes e se afogando no áspero carpete.
Não vou te chamar dessa vez, não vou te impedir de sua fuga covarde, você me vê quando atravesso? Quando atravesso a cortina para o outro lado?
Pesadas são elas, mas o vento não é misericordioso.Você imprimiu em mim sua luta e não precisou dizer nada, pois eu já sabia. No fundo de nós há uma trégua desconhecida que desponta como um barco num novo continente.

postado por: Paula Borges 8:36 PM




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